Dor: sensação somática imponderável
Dr. Abner Carlos Areno

“Só sei uma coisa: é que nada sei...” (Sócrates)



No homem doente, a interpretação dos inumeráveis aspectos que pode assumir a dor física, permanece ainda hoje, assim como nos tempos de Hipócrates na antiga Grécia, uma das colunas centrais para se chegar a um diagnóstico ou excluí-lo. Apesar do contínuo aperfeiçoamento de técnicas instrumentais, laboratoriais e farmacológicas, se existe alguma área onde um médico pode atuar fazendo aquilo que é chamado de arte médica e que tem um caráter perenemente insubstituível é na área da dor. É nessa área que o confronto direto com o paciente se reveste e assume a forma de verdadeiro banco de provas da capacidade profissional do médico. É nesse confronto que se pode demonstrar a vocação à arte entendida no sentido hipocrático, ou seja, no modo correto de praticar a verdadeira medicina. 

Há, no ser humano, uma intimidade muito grande com a dor, mas, apesar disso, há também uma dificuldade muito grande para sua conceituação. Essa dificuldade é explicitada pelo fato puro e simples de não poder ser quantificada. A dor poderia ser definida com “sensação desagradável produzida pela excitação de terminações nervosas sensíveis aos estímulos dolorosos e classificada de acordo com o seu lugar, tipo, intensidade, periodicidade, difusão e caráter”. A Associação Internacional para o Estudo da Dor definiu a dor em 1979 como “uma sensação desagradável e uma experiência emocional associadas com uma lesão tissular atual ou potencial”.

A dor, no entanto, deve ser entendida como um complexo de percepções emocionais, psicológicas e físicas, e não como uma simples mensagem sensorial, assinalando lesão ou dano celular. Mais que isso, é um estado de necessidade do organismo cuja função principal é promover a cura e não apenas evitar a lesão ou sua progressão. Percebe-se, a partir dessa constatação, que existem dois componentes essenciais da dor: um discriminativo e outro afetivo. O componente discriminativo inclui a habilidade de identificar o estímulo como se originando de tecidos viscerais ou somáticos, determinar algumas das propriedades físicas do estímulo e localizá-lo no tempo, espaço e numa escala contínua de intensidade. O componente afetivo é a experiência de aversão, que motiva o comportamento protetor, de escape e de evitação.

Só nos Estados Unidos, consomem-se 50 milhões de comprimidos de aspirina por dia, ou mais de 15 bilhões de comprimidos por ano, lembrando que a aspirina é somente um dos vários produtos disponíveis no mercado. A dor é um fenômeno de ampla prevalência no ser humano. Tão ampla que é possível afirmar que a humanidade é uma espécie “dolorida” ou que a dor habita o ser humano.

Quem começa uma pesquisa sobre a dor percebe rapidamente que a mesma possui ou acompanha um grande número de nomes específicos: “cefaléia”, “enxaqueca”, “tenossinovite”, “cólica renal”, “reumatismo”, “fibromialgia” (v. em Info Médico), etc. A chamada dor crônica, como na fibromialgia e cefaléia, possui grande proximidade com a depressão e a angústia. A dor de cabeça, particularmente, possui também uma íntima relação com a subjetividade. Lembrar, além disso, que a depressão e a angústia, bem como a conversão muitas vezes se manifestam como dor de cabeça, assim como o contrário, isto é, esta freqüentemente acompanha aquelas.

A dor é um mecanismo de proteção do organismo. Acusa os estímulos potencialmente ou realmente lesivos; é, basicamente, uma defesa contra ameaças lesivas ou lesões vindas de fora, da realidade externa ao organismo. Acaba por proteger o organismo pelo fato de provocar uma tensão e ações que procuram evitar ou fugir desses perigos. Atividades simples, como ficar sentado por longo tempo sobre os ísquios, podem causar destruição dos tecidos, podem causar destruição dos tecidos, por causa da diminuição ou mesmo falta do fluxo sanguíneo na pele que fica comprimida pelo peso do corpo, entre os ossos e a superfície onde a pessoa está apoiada. Quando a pele começa a ficar dolorida, como resultado da isquemia, a pessoa, inconscientemente, desloca o peso e muda o apoio. Se o indivíduo perder o sentido da dor, como após lesão da medula espinhal ou em idosos acamados, onde a sensação pode até estar presente, mas coexistindo com dificuldade ou impossibilidade para se movimentar no leito, a pele comprimida pode se lesar a ponto de aparecerem ferimentos (escaras).

Minkowski (1973) diz que a dor é um dos elementos essenciais que determinam os limites de nossas relações com o ambiente; contém, de maneira intrínseca, a noção de uma força estranha que atua em nós e que somos obrigados a suportar. A conclusão final é que o ser humano necessita da dor. 

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